Foi, simplesmente. Não perguntes como ou quando, nem sequer porquê. Não sei responder a esse tipo de perguntas, fico nervosa e tremem-me os joelhos, como na véspera de um exame, sabes que odeio exames, não sabes? Devias saber pelo menos isso, alguma coisa devias saber sobre mim. Mas não, sei que não sabes, não sabes quem sou e não saberias reconhecer o meu cadáver se te chamassem à Morgue, quando eu morresse. Não, não faço intenções de me matar, foi só um exemplo , não te assustes! Mas que mania das pessoas ficarem escandalizadas quando se fala da morte! Não me vou matar, a sério, até gosto da minha vida, se bem que podia ser melhor.
E sabes o que a tornava melhor? Se tu não ligasses às rapariguitas que usam calções que mostram as nádegas mesmo no mais frio dos invernos – sim eu vejo-te a sorrires-lhes no metro – , se tu não gostasses tanto dessas saídas para sítios que eu não conheço e se tu não fosses tão diferente de mim ao ponto de não notares sequer que eu existo. Mas, a sério, se tu ligasses menos a essas coisas podes ter a certeza de que, num beco sem saída, me irias encontrar, encolhida, com frio – mas não por causa dos calções que mostram as nádegas – à tua espera, à espera desse abraço forte que apaga os monstros e limpa as teias de aranha.
Eu preciso de ti, não entendes? Não se nota que eu passo por ti todos os dias, às oito e quarenta e dois, quando apanhámos o metro para o estádio do Dragão? E eu vejo-te sair na Casa da Música, com a tua pasta de executivo bem sucedido e eu, de roupas descontraídas, sigo para a Baixa, para a minha loja de bugigangas onde ninguém entra e que está prestes a fechar.
E porque é que não me lanças um sorriso, se isso poderia deixar-me mais feliz e alimentar-me a alma durante uma semana? Porque é que ages de forma indiferente e apenas pedes desculpa quando me pisas, e não me convidas para um café, um chá, um jantar, uma saída? Vamos ao cinema, está um filme óptimo em cartaz, um dramalhão, aposto que íamos chorar os dois; mas ok, se não queres podemos ir ver uma comédia, aposto que te ias rir mais do que eu, esse sorriso lindo, dentes perfeitamente brancos, lábios carnudos e rosados, covinhas nas bochechas.... Tens uma pele que deve ser muito sedosa, sim senhor, eu nem trinta anos te dava por causa da pele que está muito bem conservada, mas o teu amigo, sim aquele baixinho e careca que não deve estar com uma mulher há anos, ele deu-te os parabéns no outro dia, fazias trinta e dois, nunca mais me esqueci do dia: vinte de Março. Apeteceu-me fazer-te festinhas e dar-te beijinhos na ponta do nariz, dar-te os parabéns e gritar a toda a gente no metro que vivia em função do teu amor e que só sabia o teu primeiro nome, que não sei porque te amo, nem como ou quando começou, mas não consigo parar, não consigo mesmo, acho que és a minha droga, o meu refúgio.
Por favor não te esqueças mais de mim, experimentei um penteado novo e nem sequer olhaste, pensei até em rapar o cabelo só para te escandalizar, para te fazer reparar em mim! Diz-me que eu sou bonita! Mas que mal é que eu te fiz? Eu sou uma mulher tão interessante, até me dizem que é uma pena eu estar sozinha!
Vá, anda aconchegar-te comigo frente à lareira que tenho na sala, sou especialista a fazer pipocas e tenho uma invejável colecção de DVD’s! Qualquer coisa, mas anda, por favor, não aguento mais passar os dias a personificar-te no meu gato! O pobre do bicho já me foge e o pêlo dele em nada se parece com a tua pele... Vá, não me deixes verter nem mais uma lágrima, sei que és tu que vais livrar a minha vida do abismo e a minha alma da fogueira, sei que és aquele por quem tenho esperado...
Vá, não te atrases mais, tens de chegar! Olha que vais perder o metro, não vês que já são oito e quarenta e dois? Onde é que te meteste, porque é que não estás aqui hoje, para onde foste? Nem sequer vejo o teu amigo baixinho, para onde foram os dois? Não me digas que és gay? Mas que desperdício! Ai não, o teu amigo vem aí, conseguiu entrar no metro! Mas onde é que tu estás? Ele vem vestido de preto, não me digas que morreste? Bestial e agora o que é que eu faço? Óptimo mesmo, vou perder o dia todo a prestar depoimentos, a identificar o teu cadáver e a explicar às pessoas que a minha vida acabou porque tu desapareceste e eu não sei como, quando ou porquê, mas comecei a amar-te e não consigo parar!
Ah, afinal já vens aí, mas olha, agora lixas-te e apanhas o próximo metro porque neste já não entras, provavelmente vais chegar atrasado e vais ouvir do patrão... Que falta de pontualidade, valha-me Deus, fica uma pessoa assim toda preocupada e vens tu todo descontraído...
>>> Mariana Silva
[Abril 2006]
terça-feira, 25 de março de 2008
domingo, 23 de março de 2008
Chocolate Ultra-Congelado, no sítio do costume

Devo confessar que a minha visão da Páscoa é aquela que a maioria das pessoas tem: férias e doces. Para mim, Páscoa significa poder ficar acordado até tarde e ter na televisão, ao despertar, um reclame do Pingo Doce a umas amêndoas “de grande qualidade”, logo seguidas de uvas sem grainha, e tudo a preços mais convidativos do que os produtos em si. Páscoa é ficar a chupar os dedos depois de encontrar chocolates roubados em qualquer canto da casa da minha avó, é arrumar por detrás das montras os aliciantes do dia dos namorados e lá pôr quaisquer coisas que estejam relacionadas com coelhos, ovos, amêndoas e outras coisas com corantes. A Páscoa é não poder ir comprar leite a um mini mercado sem quase nos sentirmos obrigados a levar connosco um ovo gigante de chocolate da Kinder. É deitar-me no sofá depois de comer – a bem dizer, enfardar – cabrito seguido de leite-creme com amêndoas (estas, sem cobertura), baba de camelo, gelatinas variadas, frutas e um ovo de chocolate para desenjoar.
A Páscoa é, para muita gente, um período de reflexão espiritual. Por isso, decidi também reflectir. Mas parece-me que há uma diferença entre mim e os outros pensadores: eles têm questões e pensam tentando chegar a respostas; eu não tenho questões, começo a pensar e então que, de repente, elas surgem. E o pior é que não chego às respostas.
Por exemplo, uma coisa que me deixa indignado é o facto de um coelho dar ovos. Na minha reflexão, ver um coelho a dar ovos é a mesma coisa que assistir a uma galinha a parir. Estamos perante um fenómeno raro, que acontece uma vez por ano, que é um coelho – ainda por cima macho – a pôr ovos. E um coelho que, pelos anos que já deve ter, já devia ter chegado à menopausa (ou andropausa? A minha confusão aumenta). Mas não há nada de lógico num coelho masculino que põe ovos de chocolate. Só pode ser um mutante ou uma vítima de algum acidente nuclear.
Mas este invulgar acontecimento, o de um coelho a produzir ovos de chocolate, não é caso único em termos de coisas bizarras características da época. Parece que há uns anos – dizem-me fontes seguras – ressuscitou um homem chamado Jesus, que tinha morrido na anterior sexta-feira. Morreu na sexta, ressuscitou no Domingo. É estranho que ainda ninguém tenha avançado com a possibilidade de que Ele possa apenas ter adormecido. Eu pessoalmente já dormi sestas que duraram quase tanto tempo. E nenhum coelho anda a cagar ovos só porque eu dormi tempo demais.
Depois, falta à Páscoa um grande espírito que é injectado em qualquer ser humano que se preze, como acontece no Natal. Um mês antes do Natal, já andam todas as pessoas a desejar “Feliz Natal” umas às outras. Se eu, há um mês, andasse a desejar “Feliz Páscoa” ou “Come muitas amêndoas”, ou me mandavam internar ou me escondiam um calendário no folar. “Feliz Páscoa” só a partir da Quaresma, e é para quem se lembra. E nessa questão de espírito, a Páscoa sai muito a perder em relação ao Natal. Na Páscoa, ninguém põe coelhos gigantes a subir aos telhados, e coisa que não existe é “A Páscoa dos Hospitais” ou “A Páscoa das Prisões” – o que até é um ponto a favor da Páscoa – não há gorjetas maiores que o habitual, o dinheiro ganho pelos pedintes não sobe em flecha, as crianças não andam pela casa à procura dos ovos, nem as mais novas se escondem nem fazem uma chinfrineira porque o coelho entrou; em vez de dar o “Sozinho em Casa” cem vezes, dá o “Ben Hur” apenas cinquenta, não há emissões de quatro horas para uma árvore gigante com lamparinas em cima.
Falta, portanto, espírito à Páscoa. E como se chamaria um eventual espírito? Espírito Pascoal? Pascoal só me faz lembrar o bacalhau. E o bacalhau come-se quando? No Natal.
É inevitável. O Natal ganha.
quinta-feira, 13 de março de 2008
Paixão

Debaixo da chuva, dos olhares sem mar,
Abraçada pelas luas dos dias finitos...
Sinto quebrar o já quebrado
Sinto roer o já roído
Quero chamar o nunca chamado
E render o nunca rendido...
Nas horas mortas dos ponteiros vivos,
Nos silêncios cortados das amarras eternas...
Ouço dizer o nunca antes dito
Ouço verdades nunca verdadeiras
Prendo beijos do amante maldito
E estrelas, cometas... galáxias inteiras!
São momentos, são impulsos, são paixões
Como cartas, risos, fotos ou canções...
De luares, mil sóis e dias por haver!
E é tudo sempre o mesmo, tão diferente...
Que sinto, quero, ouço e prendo.. tanta gente!
E no fim só tu me tens, sem eu te ter...
> Mariana Silva
quarta-feira, 12 de março de 2008
A história do 112 que ficou reduzido a décimais

Dizer parvoíces sobre ambulâncias não é novidade para mim. De facto, a minha primeira piada, de toda a minha vida, foi sobre uma ambulância. Estava eu em casa da minha bisavó, chamou-se uma ambulância agora não me lembro porque carga de água, e na altura - vejam lá aos anos que isto foi (sinto-me acabado...) - o número de emergência era o 115. Com a demora da ambulância, saio-me eu com esta: "Fogo (na altura "fogo" estava muito na moda), mais valia termos chamado o 114".
A minha mãe riu-se. O meu pai chorou de orgulho. A minha bisavó pediu-me para repetir. Ao início pensei que era por ter gostado, mas foi porque não ouviu. Seja como for, fui um sucesso. A partir daí, tomei-lhe o gosto e fiquei parvo.
Decidi agora escavar fundo na imundície dos alicerces da minha imbecilidade. O que me fez recordar isso foi a notícia da ambulância que foi albaroada por um comboio numa passagem de nível. É catastrófico pensar que um veículo que salva vidas aos magotes pode ser também o transporte para a última viagem da vida, quando tanto quanto sei os utentes estavam a fazer fisioterapia. É como um barco salva-vidas a transformar-se em poucos segundos num navio-expresso para Aqueronte.
Agora a questão é o porquê da tomada do risco, e isto é sério, é a cidadania dos condutores que nos podem guiar à biforcação entre a vida e a morte. A condutora era uma mulher, portanto não foi por exibicionismo. Não foi pela gravidade dos utentes, que parece que só tinham problemas nos ossos (podia fazer aqui uma piada macabra, mas hoje faço meses de namoro e devo a integridade à minha namorada). Tudo não passou de uma mera fraqueza humana de querer superar barreiras. O homem não gosta de barreiras. Detesta limites. E eu incluo-me. Quando as folhas do meu caderno têm aquelas linhas vermelhas verticais, só me apetece ultrapassá-las, nem que tenha o caderno todo disponível. Eu posso nem sequer me lembrar que tenho chocolates, mas mal a minha mãe me diz para não os comer porque já vamos jantar começo logo a roer-me todo.
No fundo, este acidente não passou de mais uma tentação inacta de pecar por gosto.
E quem culpamos? A falta de sinalização ou a maçã de Eva?
domingo, 2 de março de 2008
Paris
No ar pairava um cheiro a alfazema, a primavera-verão confusa no romance que lhe dourava os cabelos, à luz do sol parisiense. Sentados na mesa da esplanada, a toalhinha vermelhusca, as velhas, uma cena quase de desenho animado, se estivessem eles a partilhar almôndegas e se saísse do restaurante um cozinheiro gordo a tocar acordeão apaixonadamente… Ela gargalhava, ele não tirava os olhos da boca dela, que a menina humedecia em tom provocatório, de vez em quando. Riam os dois, nem sabiam bem de quê… Riam um para o outro, um do outro, embalados naquela Paris que embebedava os sentidos, deixando-se apaixonar sem medo, porque a cidade assim o pedia.
Passou-lhe pela cabeça que ele a levara ali para a pedir em casamento. Tantas histórias tinha já escutado, de namorados loucos que, no topo da torre Eiffel, a tremer de frio, a esconderem-se das alturas, sussurravam o mais romanticamente possível um pedido de união eterna… E claro que as namoradas respondiam afirmativamente, coitado do rapaz, tanto esforço…
Estava aterrada. Se isso lhe acontecesse, que faria? Não, ele não seria capaz… Estavam tão bem assim, tão descontraídos, sem nada que os obrigasse a partilhar seja o que fosse – partilhavam porque assim o que queriam. Diria que não, com certeza ela recusaria se ele lhe fizesse essa proposta… Pediria um tempo para pensar, como se vê nos filmes e nas telenovelas. Mas nestas coisas não se pensa muito: se estivessem prontos para casar, ela diria sim sem hesitar. Não… E daí…talvez tivesse de pensar… Sim, tinham sinceramente de pensar em conjunto para assentar ideias. Era a desculpa perfeita: temos de falar, amor! Onde morar, como pagar as contas, tanta burocracia no meio do amor, Jesus!
Entretanto, ele continuava a olha-la, a sentir a brisa de Paris, a sentir a sua brisa, a sorver-lhe o olhar e a dar-lhe o mundo num sorriso, e ela teve a certeza que não desejava estar noutro lugar senão ali, com ele, sem torres Eiffel, sem filmes ou telenovelas, sem burocracias no meio do amor.
Estavam ali juntos, rindo. Pairava no ar um cheiro de alfazema. E aquele fim-de-semana era para eles o primeiro de muitos, ao som de uma música inaudível para outros, nas alturas para eles … Estavam apaixonados, havia dúvidas?
Ela teve a certeza de que ele não diria nada. Estavam ali, e isso bastava.
>>> Mariana Silva
Passou-lhe pela cabeça que ele a levara ali para a pedir em casamento. Tantas histórias tinha já escutado, de namorados loucos que, no topo da torre Eiffel, a tremer de frio, a esconderem-se das alturas, sussurravam o mais romanticamente possível um pedido de união eterna… E claro que as namoradas respondiam afirmativamente, coitado do rapaz, tanto esforço…
Estava aterrada. Se isso lhe acontecesse, que faria? Não, ele não seria capaz… Estavam tão bem assim, tão descontraídos, sem nada que os obrigasse a partilhar seja o que fosse – partilhavam porque assim o que queriam. Diria que não, com certeza ela recusaria se ele lhe fizesse essa proposta… Pediria um tempo para pensar, como se vê nos filmes e nas telenovelas. Mas nestas coisas não se pensa muito: se estivessem prontos para casar, ela diria sim sem hesitar. Não… E daí…talvez tivesse de pensar… Sim, tinham sinceramente de pensar em conjunto para assentar ideias. Era a desculpa perfeita: temos de falar, amor! Onde morar, como pagar as contas, tanta burocracia no meio do amor, Jesus!
Entretanto, ele continuava a olha-la, a sentir a brisa de Paris, a sentir a sua brisa, a sorver-lhe o olhar e a dar-lhe o mundo num sorriso, e ela teve a certeza que não desejava estar noutro lugar senão ali, com ele, sem torres Eiffel, sem filmes ou telenovelas, sem burocracias no meio do amor.
Estavam ali juntos, rindo. Pairava no ar um cheiro de alfazema. E aquele fim-de-semana era para eles o primeiro de muitos, ao som de uma música inaudível para outros, nas alturas para eles … Estavam apaixonados, havia dúvidas?
Ela teve a certeza de que ele não diria nada. Estavam ali, e isso bastava.
>>> Mariana Silva
quarta-feira, 27 de fevereiro de 2008
É fácil, é Barak e dá milhões
Hillary Clinton e Barak Obama protagonizam uma das lutas mais bizarras da história dos Estados Unidos da América. Porque a crua verdade é esta: o próximo presidente do país de Washigton e Jefferson ou será uma mulher ou será um tribal.
Do lado de Obama está a vantagem de ser um homem. Do lado de Clinton está a vantagem de se parecer com o seu homem. Em tudo. Reparem que até no sorriso forçado.
Eu até já imaginei a cara de Obama como a quinta no Mount Rushmore e até fica engraçado, ali mesmo ao lado do Lincoln. Se bem que por respeito aos pobres coitados ali esculpidos deviam construir a cara de Hillary, porque eles bem devem estar a precisar de uma companhia feminina passados tantos anos em que o mais feminino que tiveram foi o cabelo de George Washington.
Mas eu - pasme-se - encontro uma vantagem em vontar em Clinton. Se repararem, com uma mulher no poder, os Segredos do Estado norte-americano seriam do domínio público. Era num instante que, Clinton, do seu escritório, admirando-se com algo do domínio estritamente governamental, telefona ao marido e diz: "Honey, nem imaginas o que é que eu descobri aqui! Não é que o...", "Eu sei, filha, era a mesma coisa há dez anos atrás quando eu estava aí nessa tua cadeira", "Não, sweetie, nesta não estavas, que esta mandei eu instalar e tem massajador", "Massajador, hein? Se eu soubesse tinha sido bom para mim e para a menina Lewinsky", "Não ouvi, Billy, diz lá?, "Nada filha, bom trabalho!".
É perciso referir que o famoso caso de adultério de Bill Clinton com Monica Lewinsky - tem mesmo nome de judia a mulher! - também deve ter tido influência na sanidade mental de Hillary, porque nunca cai bem no goto uma traição, nem que seja por uma questão de orgulho. E eu penso que o orgulho poderá falar mais alto, e Hillary pode estar aqui à procura de uma oportunidade para se vingar. Esperará que, sendo eleita presidente, terá um secretário jeitoso. E cego, para as hipóteses existirem. E pimba! A vingança servida fria!
Mas como eu dizia - e porque é importante não perder o fio à meada - Hillary Clinton telefona ao marido e, não lhe tendo podido dar novidade, vai telefonar à melhor amiga. E quem diz melhor amiga diz as amigas. E quem diz amigas, diz o carteiro. Há essa necessidade de dar à lingua, de contar tudo. Se Bush fosse uma mulher, a invasão ao Iraque e os seus mais ínfimos pormenores em dois dias que seriam do conhecimento aqui do chinês que tem uma loja na minha rua. Positivo, portanto.
Uma coisa que eu não apreciaria era mais uma família de poder. Num contexto distinto, temos os irmãos Castro. Temos os Bushes. E agora, depois de Bill, candidata-se a mulher. Qualquer dia candidata-se o cão. E eu antes votava no cão.
Uma nota: penso que em Portugal nunca seria possível termos uma mulher como Presidente da República. Porquê? Pelo assombroso número de pessoas que ainda diz a palavra "presidenta". Enquanto não se aprender que "presidente" é uma palavra neutra - ou "unisexo" para quem se dê melhor com a palavra - nunca teremos uma mulher no poder. Nesse aspecto, os americanos levam vantagem por terem uma lingua bem mais facil. E mesmo assim Bush Jr. a complica, diga-se.
E baixando a poeira, quem ficará de pé? É facil, Obama. Primeiro, porque sim. Segundo, porque Obama é do Quénia, e sabe bem como domar as feras como Clinton.
Diogo Hoffbauer
Do lado de Obama está a vantagem de ser um homem. Do lado de Clinton está a vantagem de se parecer com o seu homem. Em tudo. Reparem que até no sorriso forçado.
Eu até já imaginei a cara de Obama como a quinta no Mount Rushmore e até fica engraçado, ali mesmo ao lado do Lincoln. Se bem que por respeito aos pobres coitados ali esculpidos deviam construir a cara de Hillary, porque eles bem devem estar a precisar de uma companhia feminina passados tantos anos em que o mais feminino que tiveram foi o cabelo de George Washington.
Mas eu - pasme-se - encontro uma vantagem em vontar em Clinton. Se repararem, com uma mulher no poder, os Segredos do Estado norte-americano seriam do domínio público. Era num instante que, Clinton, do seu escritório, admirando-se com algo do domínio estritamente governamental, telefona ao marido e diz: "Honey, nem imaginas o que é que eu descobri aqui! Não é que o...", "Eu sei, filha, era a mesma coisa há dez anos atrás quando eu estava aí nessa tua cadeira", "Não, sweetie, nesta não estavas, que esta mandei eu instalar e tem massajador", "Massajador, hein? Se eu soubesse tinha sido bom para mim e para a menina Lewinsky", "Não ouvi, Billy, diz lá?, "Nada filha, bom trabalho!".
É perciso referir que o famoso caso de adultério de Bill Clinton com Monica Lewinsky - tem mesmo nome de judia a mulher! - também deve ter tido influência na sanidade mental de Hillary, porque nunca cai bem no goto uma traição, nem que seja por uma questão de orgulho. E eu penso que o orgulho poderá falar mais alto, e Hillary pode estar aqui à procura de uma oportunidade para se vingar. Esperará que, sendo eleita presidente, terá um secretário jeitoso. E cego, para as hipóteses existirem. E pimba! A vingança servida fria!
Mas como eu dizia - e porque é importante não perder o fio à meada - Hillary Clinton telefona ao marido e, não lhe tendo podido dar novidade, vai telefonar à melhor amiga. E quem diz melhor amiga diz as amigas. E quem diz amigas, diz o carteiro. Há essa necessidade de dar à lingua, de contar tudo. Se Bush fosse uma mulher, a invasão ao Iraque e os seus mais ínfimos pormenores em dois dias que seriam do conhecimento aqui do chinês que tem uma loja na minha rua. Positivo, portanto.
Uma coisa que eu não apreciaria era mais uma família de poder. Num contexto distinto, temos os irmãos Castro. Temos os Bushes. E agora, depois de Bill, candidata-se a mulher. Qualquer dia candidata-se o cão. E eu antes votava no cão.
Uma nota: penso que em Portugal nunca seria possível termos uma mulher como Presidente da República. Porquê? Pelo assombroso número de pessoas que ainda diz a palavra "presidenta". Enquanto não se aprender que "presidente" é uma palavra neutra - ou "unisexo" para quem se dê melhor com a palavra - nunca teremos uma mulher no poder. Nesse aspecto, os americanos levam vantagem por terem uma lingua bem mais facil. E mesmo assim Bush Jr. a complica, diga-se.
E baixando a poeira, quem ficará de pé? É facil, Obama. Primeiro, porque sim. Segundo, porque Obama é do Quénia, e sabe bem como domar as feras como Clinton.
Diogo Hoffbauer
terça-feira, 26 de fevereiro de 2008
Mais que o necessário
O que eu precisava era que me trouxesses sossego
Numa bandeja de prata…
Que me estendesses na mão um sem fim de soluções
Para os problemas que não tenho!
Que calasses a voz de pássaro morto
Que quer voar para abraçar o infinito negro…
Precisava que te deitasses ao meu lado, em silêncio
E que contasses comigo as estrelas que há muito desapareceram de vista…
Que me sussurrasses que o tempo é uma metáfora
E que a eternidade são segundos indiscutíveis!
Precisava que cantasses comigo as músicas de uma infância longínqua
Mas tão presente que as letras ainda bailam na memória…
Precisava que debaixo do braço trouxesses o jornal
Com todas as notícias que não são novidade,
E que falasses e me ouvisses, e me ouvisses e falasses.
Precisava de chorar, de largar gotas de alma no teu ombro
E de sentir a tua mão pesada de homem leve
A afagar as torturas do pedaço amargurado
Que carrego no peito.
Precisava que uma gargalhada tua me devolvesse as manhãs
E as noites e as tardes em que tudo era perfeito
Porque ninguém nunca ouvira falar de perfeição antes
E todos julgavam que era possível…
Precisava, acima de tudo, que me olhasses, que me visses
E que encontrasses em mim o que há muito eu procuro…
O que há muito todos desistiram já de procurar…
O que ninguém pensaria ser possível encontrar um dia…
Precisava de ti para mim, mas sem seres meu
Como um corpo desnudo estendido numa praia deserta
Que as ondas beijam suavemente, sempre que se enrolam na areia,
Simplesmente porque desejam fazê-lo.
Precisava, e queria, queria muito, que no teu colo houvesse a paz
Das manhãs em lençóis quentes e sem relógios que despertam o mundo louco…
Queria, queria muito, e precisava, que estivesses aqui agora.
Porque se fosses a sombra do momento
Eu não estaria só
Escrevendo palavras soltas numa branca folha fugidia...
>>> Mariana Silva
Numa bandeja de prata…
Que me estendesses na mão um sem fim de soluções
Para os problemas que não tenho!
Que calasses a voz de pássaro morto
Que quer voar para abraçar o infinito negro…
Precisava que te deitasses ao meu lado, em silêncio
E que contasses comigo as estrelas que há muito desapareceram de vista…
Que me sussurrasses que o tempo é uma metáfora
E que a eternidade são segundos indiscutíveis!
Precisava que cantasses comigo as músicas de uma infância longínqua
Mas tão presente que as letras ainda bailam na memória…
Precisava que debaixo do braço trouxesses o jornal
Com todas as notícias que não são novidade,
E que falasses e me ouvisses, e me ouvisses e falasses.
Precisava de chorar, de largar gotas de alma no teu ombro
E de sentir a tua mão pesada de homem leve
A afagar as torturas do pedaço amargurado
Que carrego no peito.
Precisava que uma gargalhada tua me devolvesse as manhãs
E as noites e as tardes em que tudo era perfeito
Porque ninguém nunca ouvira falar de perfeição antes
E todos julgavam que era possível…
Precisava, acima de tudo, que me olhasses, que me visses
E que encontrasses em mim o que há muito eu procuro…
O que há muito todos desistiram já de procurar…
O que ninguém pensaria ser possível encontrar um dia…
Precisava de ti para mim, mas sem seres meu
Como um corpo desnudo estendido numa praia deserta
Que as ondas beijam suavemente, sempre que se enrolam na areia,
Simplesmente porque desejam fazê-lo.
Precisava, e queria, queria muito, que no teu colo houvesse a paz
Das manhãs em lençóis quentes e sem relógios que despertam o mundo louco…
Queria, queria muito, e precisava, que estivesses aqui agora.
Porque se fosses a sombra do momento
Eu não estaria só
Escrevendo palavras soltas numa branca folha fugidia...
>>> Mariana Silva
segunda-feira, 25 de fevereiro de 2008
A vida são dois dias e um deles é feriado
Há perguntas tão clichés em entrevistas e coisas do género que me dá vontade de responder para mim sobre mim, não vá o diabo tecê-las. Assim, quando eu for famoso por ter inventado um comprimido que permite às pessoas não dormir durante a noite sem adormecer no lavatório de manhã, e for entrevistado, e me for colocada uma dessas questões que parecem pragas comuns a todas as entrevistas, já estarei preparado e surpreenderei com uma responta previamente expontânea.
A pergunta que mais vezes detectei foi provavelmente "O que mudaria em si se tivesse oportunidade?", claro que a par de "Quais são os seus planos para o futuro?", "Qual é o seu maior medo?" ou "Onde acha que está a Maddie?".
A hipocrisia quase obrigatória de quem responde a perguntas com a consciência de que as pessoas que lerão aquela entrevista formarão muitos juízos sobre a sua personalidade, e a imagem custa muito a formar como nós a queremos - que é com os defeitos maquilhados e as qualidades carregadas - empurra os entrevistados para o habitual "Nada, sou feliz como sou". Balelas. Bullshit. Normalmente esta pergunta é feita em termos físicos, e como tal podemos dividir os entrevistados em duas categorias: os feios e os bonitos.
Os feios optam pelo conformismo, dizendo que gostam de ser como são. Os bonitos - espécie rara, e consequentemente resposta menos ouvida - dizem que mudam tudo e mais alguma coisa. Um toquesinho de modéstia. Tanto o conformismo como a modéstia ficam sempre bem. Ou pelo menos sabem bem a quem não os realmente possui.
Eu decidi responder a esta pergunta. E cheguei à conclusão de que o que mudava em mim
era com certeza a minha preguiça. Depois de diminuir o nariz, tornar o meu corpo mais atlético, fazer alguma coisa em relação ao meu cabelo e tornar-me inteligente o suficiente para ganhar um jogo de Cluedo à minha mãe e poderoso o suficiente para fazer a Maria de Lurdes Rodrigues ser internada - como quem me conceder o poder de alterar algo em mim terá certamente também o poder de evitar que Maria de Lurdes Rodrigues seja internada, torçamos para que a alma caridosa que hipoticamente que daria tais poderes fosse jovem estudante e tivesse aulas de substituição às oito e meia.
Mas depois disto tudo, era a preguiça.
Não me entendam mal! Como português que sou, eu adoro a minha preguiça! Ai, o prazer que não é passar um domingo de pijama a consolar as mágoas de não ter a namorada por perto com futebol todo o dia na TV, dormir até tarde, e só me levantar para ir buscar de comer ao frigorífico ou ir ao quarto de banho, porque é assim o ciclo. Eu tenho orgulho desta minha faceta. E como vêm, exponho-a sem pudor, e a isto não ajuda só o orgulho mas também a desfaçatez.
Há uma parte de mim que mal pode esperar por expôr orgulhosamente a minha barriga de cerveja.
Mas por outro lado, é algo que me faz esconder a cabeça de vergonha. Na sociedade portugesa em que vivemos, os preguiçosos são cada vez mais postos de lado. E ironicamente o nosso lado - dos preguiçosos - fica cheio. E do outro lado estão meia-dúzia. E nenhum deles é português.
Mas a verdade é que um preguiçoso é um inútil.
Vantagem: "Vamos dar este trabalho ao Diogo?", "Não, ele é preguiçoso, ao fim-de-semana não faz nada de certeza. Fico eu encarregue!". Muito bom, é menos uma coisa para fazer no fim-de-semana, tenho agora -1 coisas para fazer.
Desvantagem: "Convidamos o Diogo?", "Oh, é fim-de-semana, provavelmente ainda está a dormir! Vamos ver o Porto nós!". Felizmente isto nunca aconteceu. E uma vez que
aconteça, nunca mais na vida me esperguiço.
Alguém muito sábio disse uma vez que "pessoas inteligentes são preguiçosos". Deve ter sido um estampador de camisolas que o disse - porque é de facto uma excelente prenda - mas era um sábio com certeza.
E que mal tem um pouco de preguiça? Deixem-me aproveitar o deleite do pecado! Toda a gente sofre de pelo menos um pecado capital. O único problema em mim é mesmo ter dois, e em peso: a famigerada preguiça e a gula.
E dava jeito cortar pelo menos uma, para não parecer mal. Falta saber é qual cortar e como.
Hum...
Let me sleep on it...
Diogo Hoffbauer
A pergunta que mais vezes detectei foi provavelmente "O que mudaria em si se tivesse oportunidade?", claro que a par de "Quais são os seus planos para o futuro?", "Qual é o seu maior medo?" ou "Onde acha que está a Maddie?".
A hipocrisia quase obrigatória de quem responde a perguntas com a consciência de que as pessoas que lerão aquela entrevista formarão muitos juízos sobre a sua personalidade, e a imagem custa muito a formar como nós a queremos - que é com os defeitos maquilhados e as qualidades carregadas - empurra os entrevistados para o habitual "Nada, sou feliz como sou". Balelas. Bullshit. Normalmente esta pergunta é feita em termos físicos, e como tal podemos dividir os entrevistados em duas categorias: os feios e os bonitos.
Os feios optam pelo conformismo, dizendo que gostam de ser como são. Os bonitos - espécie rara, e consequentemente resposta menos ouvida - dizem que mudam tudo e mais alguma coisa. Um toquesinho de modéstia. Tanto o conformismo como a modéstia ficam sempre bem. Ou pelo menos sabem bem a quem não os realmente possui.
Eu decidi responder a esta pergunta. E cheguei à conclusão de que o que mudava em mim
era com certeza a minha preguiça. Depois de diminuir o nariz, tornar o meu corpo mais atlético, fazer alguma coisa em relação ao meu cabelo e tornar-me inteligente o suficiente para ganhar um jogo de Cluedo à minha mãe e poderoso o suficiente para fazer a Maria de Lurdes Rodrigues ser internada - como quem me conceder o poder de alterar algo em mim terá certamente também o poder de evitar que Maria de Lurdes Rodrigues seja internada, torçamos para que a alma caridosa que hipoticamente que daria tais poderes fosse jovem estudante e tivesse aulas de substituição às oito e meia.
Mas depois disto tudo, era a preguiça.
Não me entendam mal! Como português que sou, eu adoro a minha preguiça! Ai, o prazer que não é passar um domingo de pijama a consolar as mágoas de não ter a namorada por perto com futebol todo o dia na TV, dormir até tarde, e só me levantar para ir buscar de comer ao frigorífico ou ir ao quarto de banho, porque é assim o ciclo. Eu tenho orgulho desta minha faceta. E como vêm, exponho-a sem pudor, e a isto não ajuda só o orgulho mas também a desfaçatez.
Há uma parte de mim que mal pode esperar por expôr orgulhosamente a minha barriga de cerveja.
Mas por outro lado, é algo que me faz esconder a cabeça de vergonha. Na sociedade portugesa em que vivemos, os preguiçosos são cada vez mais postos de lado. E ironicamente o nosso lado - dos preguiçosos - fica cheio. E do outro lado estão meia-dúzia. E nenhum deles é português.
Mas a verdade é que um preguiçoso é um inútil.
Vantagem: "Vamos dar este trabalho ao Diogo?", "Não, ele é preguiçoso, ao fim-de-semana não faz nada de certeza. Fico eu encarregue!". Muito bom, é menos uma coisa para fazer no fim-de-semana, tenho agora -1 coisas para fazer.
Desvantagem: "Convidamos o Diogo?", "Oh, é fim-de-semana, provavelmente ainda está a dormir! Vamos ver o Porto nós!". Felizmente isto nunca aconteceu. E uma vez que
aconteça, nunca mais na vida me esperguiço.
Alguém muito sábio disse uma vez que "pessoas inteligentes são preguiçosos". Deve ter sido um estampador de camisolas que o disse - porque é de facto uma excelente prenda - mas era um sábio com certeza.
E que mal tem um pouco de preguiça? Deixem-me aproveitar o deleite do pecado! Toda a gente sofre de pelo menos um pecado capital. O único problema em mim é mesmo ter dois, e em peso: a famigerada preguiça e a gula.
E dava jeito cortar pelo menos uma, para não parecer mal. Falta saber é qual cortar e como.
Hum...
Let me sleep on it...
Diogo Hoffbauer
sábado, 23 de fevereiro de 2008
Poema (antiguinho já...)

Lágrimas.
Quantas lágrimas chorei
nesse rio que edificaste
tijolo a tijolo
beijo a beijo
palavra a palavra...
E hoje, após o rio ter secado,
seguro o cair de mais um pedaço
de alma
de tijolo
de beijo...
Porque as palavras, essas !, tão fáceis
Queimam em segundos
O dificil morrer do tempo...
>>> Mariana Silva
domingo, 17 de fevereiro de 2008
Humanos
Aprendemos a caminhar. Aprendemos a falar. Aprendemos a ter uma rotina.
Aprendemos a tratar de nós, a evitar doenças, a cuidarmos do corpo, a cultivarmos a mente. Aprendemos a divertirmo-nos, aprendemos a ser simpáticos, aprendemos a sermos educados, aprendemos a ouvir calados e a falar sem escutar... Aprendemos a gostar do mundo e a reclamar dele, aprendemos a fazer algo por nós e a devanear como fazer algo pelos outros. Aprendemos a ser um e a ser todos, e a ser todos sem ser um.
Aprendemos muita coisa.
Mas continuamos, após anos de aprendizagem, a não saber ter sonhos, a não saber dar sem no fundo esperar receber, a não saber como sorrir sem embaraço nem chorar sem ser em silêncio. Continuamos sem saber que rumo seguir apesar de sabermos caminhar, continuamos sem saber o que dizer apesar de sabermos falar, continuamos a querer quebrar o tempo apesar de há muito termos aprendido uma rotina...
Continuamos a não saber como tratar de nós da melhor forma, continuamos a passear pelo mundo vendo a paisagem sem saber como fazer parte dela e invejando quem supostamente o consegue...
Continuamos sem saber tanta coisa.
Mas continuamos, após anos e anos sem saber, a aprender que cada dia merece um sorriso e uma lágrima, e que cada minuto merece a nossa atenção e o nosso desprezo.
Porque somos humanos de duas faces... Ou mais! - quem sabe?
>>> Mariana Silva
Subscrever:
Mensagens (Atom)
